Sob o mesmo chapéu de chuva
Há momentos na vida que nos surgem de rompante e que acabam por revelar-se de uma grande simplicidade e beleza.
Numa destas tardes de chuva intensa, em que só apetece ficar no sofá a ver um bom filme, andava eu na baixa lisboeta. Apesar dos muiros shoppings, ainda existem peças que só se encontram no comércio tradicional e eu tinha urgência em comprar um presente para oferecer ao meu marido no dia dos namorados.
Depois de procurar em duas lojas, encontrei o que queria e já me preparava para sair quando caiu uma verdadeira tromba de água. Eu e outras pessoas juntámo-nos à porta a ver a chuva, à espera que abrandasse. Mesmo ao meu lado, um homem na casa dos cinquenta anos, bem arranjado e com muito charme olhava-me com alguma insistência e naquelas circunstâncias acabei por lhe sorrir. A chuva passou de intensa a fraca e decidida, abri o chapéu e saí. Ainda não tinha dado o primeiro passo já o tal sujeito estava a meu lado enquanto me dizia: "desculpe o atrevimento, mas pretendo ir para o Rossio. Se também for para esse lado agradeço que partilhe o seu chapéu de chuva comigo. Terei todo o gosto em convidáa para tomar café".
Com o ar mais natural do mundo só respondi "concerteza, esteja à vontade. Este tempo está mesmo feio." Fomos andando pela Rua do Ouro e de vez em quando uma grossa gota caída dos toldos das montras e fazia um sonoro ping!
Já no Rossio, o meu companheiro de chapéu, adiantou: "permita-me que entremos nesta pastelaria para saborear-mos um café". Muito obrigada, aceito mas não como troca pela "boleia. Também me apetece sentar um pouco." E assim do nada, ali estive eu duas horas a conversar com um estranho e muito cavalheiro homem que pela conversa evidenciava uma grande experiência de vida. Quando nos separámos, estendeu-me um cartão de visita e lançou: "espero tornar a vê-la em breve" e saiu. Já não chovia, o que até foi pena, pois o meu impulso era continuar a dar-lhe "boleia"

